sexta-feira, 13 de abril de 2018

Presa fácil 1



1


A auto-estrada estica-se para lá da planície, a sua natureza monótona é o que a torna útil. Sem grandes alterações, com curvas largas e duas faixas é no entanto é desprovida de alma.
Para quem as utiliza frequentemente sabe bem o que acontece. Controlar o carro passa a ser algo tão automático que o corpo relaxa, os sentidos atordoam e a mente salta para algum lugar distante ou um problema difícil de resolver. Quem nunca imaginou aquela discussão, que perdeu? Depois vem o sono. Encostada ao vidro do carro forço-me a abrir os olhos outra vez, agora mais vagarosamente. Tento agarrar-me a algo, mas o sol poente ofusca-me, fecho um dos olhos e logo a pálpebra do outro pesa-me. Olho para Usil e ele tem o mesmo ar mortiço que eu. O pescoço estendido para a frente e as costas marrecas que não o favorecem nada.
Nós já estamos naquele ponto a que chega qualquer relação, para além da importância da aparência onde já não se tenta tanto, onde se relaxa e se mostra o que se é. Aquele ponto depois de se ver a parte feia, que tão desesperadamente tentamos esconder no início, que eu escondi para que estes lindos olhos verdes não fugissem. Mas mesmo depois de ele me ver, ver como eu realmente  sou, não fugiu e eu também fiquei.
Bocejo outra vez, Usil gosta sempre de vir na auto-estrada. Não faz sentido para ele ir aos ésses por caminhos maus quando o carro vem mais estável aqui. Sim claro, mas é uma seca! Por aqui não se veem aquelas terrinhas pequenas à beira da estrada, perde-se a vista das casinhas pitorescas, que surgem às vezes no meio de nada e, não se passa por aquelas estradas apertadas por árvores de um lado e de outro. Lembro-me de uma vez que fomos junto à praia até ao sul, a costa sem fim e o mar... insisto outra vez.


- Amor, porque não sais nessa saída, íamos pela nacional agora até ao fim, já só faltam uns quilómetros até à pousada. Podia ser que encontrassemos uma terrinha para lanchar. - Digo enquanto lhe toco no braço e esboço um sorriso.


Ele sai do que quer que estava emaranhado a pensar e nem parece aborrecido, com a ideia, passa a mão direita pelo cabelo longo colocando-o atrás da orelha, gesto que faz quando pensa no que lhe perguntam e uma luzinha surge nos olhos.


- Sabes, hoje já estou aborrecido disto, e por acaso até tenho fome.


- Boa! A próxima saída é já daqui a sete quilómetros. - Sorrio agora abertamente.


Ansiosa, observo os últimos quilómetros que teimam em passar, tal como tudo quando se presta demasiada atenção. Parece que a estrada agora não nos quer deixar ir, o nosso movimento parece mais lento e tudo! Mas o que afinal não era assim tanto tempo passa e a nossa saída lá chega. Passamos pela portagem, uma daquelas electrónicas que eu odeio, como se não fosse já tudo automático que chegue, agora já nem se vê ninguém aqui. Qualquer dia passa a ser assim em todo lado, vai-se  a uma repartição das finanças e estão lá uns botões com uma voz gravada para nos receber. Penso irritada enquanto a luz do dia já quase não se vê e o céu tem aqueles tons de vermelho e laranja que pintam as nuvens cinzentas.
Depois de uma grande recta a estrada chega a um cruzamento e o GPS manda-nos virar para a direita. Logo começamos a passar num vale entre colinas com árvores de vários tipos nas suas encostas. Usil, liga as luzes do carro e nós ficamos ali no escuro, curva e contracurva, uma após a outra.


- Que azar! Logo fomos apanhar estas curvas todas, estás a sentir-te bem? - Ele olha para mim preocupado, mas ele é que costuma enjoar nas curvas, às vezes até quando conduz. É mesmo flor de estufa.


- Eu estou bem, sabes quantas missões fiz eu em que tive de saltar de pára-quedas de um avião? Estou mais preocupada com a minha flor de estufa. - Digo rindo de forma trocista.


- Oh, já sabes como sou, é por isso que me lembro de perguntar, já começo com o estômago às voltas.


- Hahahaha! Anda um pouco mais devagar, assim sentes menos as curvas tótó. Isso é de teres sempre a cabeça nos livros.


- Mas tu gostas do teu tótó. - Ele sorri  cheio de confiança, o que lhe fica tão bem.


Não resisto e inclino-me do meu assento para lhe dar um beijo no pescoço, ele responde passando a mão pela minha coxa, e num instante tudo muda. Os pneus chiam e sinto uma dor incrível nas minhas costelas quando bato contra o tablier. O ar sai-me dos pulmões e fico tonta, é tão rápido que nem percebo que estamos às cambalhotas. Sacudida de um lado para outro a minha cabeça bate em algum lado, sinto-me a desfalecer. Nem acredito. Depois de tantos perigos que passei, vou morrer assim?


2


Sinto algo a escorrer pela minha têmpora e a dor, que dor tão forte. Ok lembra-te do treino, não me posso focar na dor, tenho de agir, avaliar a situação, abre os olhos Lirocana. Estou de costas sobre o assento a olhar para o tecto com a cabeça quase enfiada do lado dos pés do condutor. Lá fora vejo algumas árvores. Parece que saímos fora da estrada, puxo o ar pelas narinas, uma, duas, três vezes. Boa, não sinto nem vejo fumo. O cinto ficou na minha cintura quando me inclinei para beijar Usil e por sorte prendeu-me o suficiente para eu não ser cuspida.
Tenho de mexer-me e tentar avaliar os estragos. Primeiro os dedos dos pés e as pernas, depois as mãos e os braços. Sinto-me toda dolorida, mas não sinto cortes grandes. Volto-me devagar para o Usil, ele ainda está inconsciente com a cabeça contra o airbag que já esvaziou, chamo-o algumas vez mas sem sucesso. Coloco o braço direito por debaixo de mim e tento encontrar o botão para tirar o cinto. Após algum esforço sinto-o na ponta dos dedos, pressiono-o. Quando oiço o click, tiro o cinto de baixo de mim. Nesse momento, oiço vozes altas vindas de fora, o  meu primeiro instinto é de gritar por ajuda, mas antes que o consiga fazer, as palavras que ouço fazem-me ficar no silêncio.


- WOOOOOO, estes rebolaram bem! achas que alguém ficou vivo? - Oiço em tom trocista numa voz masculina mas com um timbre alto, a falar de forma demasiado leviana sobre o nosso bem estar.


- Espero que sim, a lua cheia é amanhã e precisamos de mais uma testemunha e um sacrifício pró ritual. - Uma voz mais áspera diz estas palavras surreais como se fosse a coisa mais normal do mundo. O conteúdo não é só surreal como também é aterrador. Quaisquer que sejam as suas intenções não serão boas de certeza, nós temos de sair daqui.


- Vá despachem-se mas é! Ainda chega mais alguém e depois temos de nos livrar deles. Tens as correntes? Temos de puxar o carro com o guincho. - Diz uma terceira voz mais nervosa, incitando os seus dois companheiros a apressarem-se.


A ameaça sobre as nossas vidas torna-se bem real. Encolho-me no banco e tento mudar de posição, rodando a minha cabeça para a janela do meu lado por forma a conseguir espreitar melhor lá para fora.  Constato que descemos bem a ribanceira, por sorte não batemos logo numa árvore grande e conseguimos ir assim desacelerando à medida que capotamos. Avisto também dois homens a descer até nós com muita dificuldade devido à inclinação.
Apesar da pouca luz, consigo perceber que o mais próximo do nosso carro é um homem de estatura baixa e com uma barriga bem distendida. O seu rosto redondo é marcado por rugas, provavelmente por estar muitas vezes exposto ao sol e é por isso difícil apurar a sua idade. Talvez se encontre na casa dos quarenta. Veste umas calças de ganga já sujas e um polo às riscas vermelho e amarelo que tem aspecto gasto. No cinto de atirador tem várias balas colocados ao seu redor e um coldre com um revólver.
O indivíduo que o segue é mais alto e apesar de também ter barriga, não é tão gordo como o outro. O cabelo grisalho e o rosto desgastado dão-me a impressão de ser mais velho que o primeiro. Tem vestida uma camisa azul escura aos quadrados arregaçada nas mangas e também umas calças de ganga. Nas mãos tem uma espingarda de caça que usa como bengala para o ajudar a descer.
A situação vai de mal a pior, ambos estão armados, ou seja, o mais provável é que o terceiro que ouvi também esteja. Com a perna sacudo o Usil para ver se ele finalmente acorda, mas nada, tenho de sair do carro mas estou mesmo virada para o lado deles. Volto a encolher-me levando os joelhos ao peito e coloco as pernas do meu lado. Escorrego para o chão do carro e rodo o corpo ficando de frente para os bancos. Forço-me através do espaço entre eles, tentando não fazer movimentos para além da linha da janela. Passo os braços primeiro e fazendo força na parte de trás dos bancos puxo-me até passar a cabeça, depois com uma leve torção faço passar o tronco e finalmente as pernas. Uma vez no banco de trás, deslizo para o chão. Muito devagar uso o puxador da porta para a abrir um pouco, apenas o suficiente para eu conseguir passar e escuto.  Lá fora os passos ainda se fazem ouvir, enquanto os dois homens pisam as folhas secas e afastam pequenos arbusto para passar.
Faço o meu corpo deslizar para o chão, de barriga para baixo e rastejo um pouco pela lateral do carro, colocando-me à porta do Usil. De cócoras, faço abrir o puxador devagar, o som que produz parece-me tão alto como um trovão numa noite de tempestade e de repente um pensamento aterrador faz-me estremecer até ao âmago da minha alma. Ainda não verifiquei se o Usil tem pulso. Os meus olhos enchem-se de lágrimas enquanto levo os meus dedos à sua garganta, quando lhe toco, a sua pele está tão fria, quase não consigo concentrar-me, já não penso nos homens, já não penso, apenas quero sentir o seu coração. Passa menos de um segundo desde que ajusto os dedos na posição certa mas para mim foram anos, até que sinto o seu coração. Um peso enorme sai de cima de mim e sinto um alívio incrível, não consigo deixar de sorrir mas por pouco tempo.


- Está aí alguém? - Oiço uma das vozes agora já muito perto do carro e Usil continua inanimado.


3


O tempo para pensar no que fazer escapa-me como água a escorregar-me por entre os dedos, os passos estão tão perto…  tanta felicidade num momento e agora estou completamente aterrorizada. Usil é demasiado pesado para eu o conseguir carregar e mesmo que conseguisse eles estão armados, não é possível que consigamos sair daqui os dois! Eu sei o que tenho de fazer, o meu treinamento diz-me em primeiro lugar para sobreviver, que se ficar nada poderei fazer por ele mas como o posso abandonar?! Como posso não o abandonar?!
As lágrimas quentes correm-me pelo rosto, sinto as gotas pesadas a pingarem pelo queixo abaixo, como vim aqui parar? Porque é que isto teve de acontecer, num momento estou a beijar o homem da minha vida e de repente tenho de fazer decisões de vida ou morte.
A vegetação adensa-se à minha frente numa confusão de tons verde e castanho. Desvio freneticamente os ramos que não consigo evitar, as suas chicotadas deixam-me pequenos cortes um pouco por toda a parte mas. A minha visão está turva, ainda choro. Eu estou mesmo a correr? Eu deixei-o para trás, nem consigo dizer o nome dele agora… como fui capaz! Tinha de ser, eu sei que sim, eu sei que sim. Gritos indistinguíveis ecoam pelas árvores, o silêncio arrebatador de uma floresta no crepúsculo, faz com que cada ramo partido, cada folha pisada, seja de uma magnitude enorme. Estou completamente perdida e o desespero tomou-me, sei que eles me estão quase a apanhar, não vou conseguir fazer nada, deixei-o para trás e nem um último beijo lhe dei, nem um último abraço, nem uma última oportunidade para sentir o seu cheiro me resta.
Eu sei que eles me tentam dizer algo, atiram-me ameaças mas não consigo ouvir, só consigo correr desesperada sem sentido, sem plano, sem esperança. Dois disparos soam ensurdecedores um a seguir ao outro. O primeiro projéctil consigo ouvir passar bem perto do meu ouvido esquerdo, o segundo acerta-me. A dor da bala a raspar na minha coxa direita faz-me cambalear e perder o equilíbrio por momentos. Nesse pequeno instante é como se o tempo ficasse mais lento, é a adrenalina, reconheço imediatamente a sensação, algo em mim desliga, aquela parte que sofre, que chora como uma criança que se perdeu da mãe, remeto-a para bem longe. Cerro os dentes deixando-me sentir raiva e como ela me dá força! Quando o meu pé esquerdo encontra o chão baixo-me ligeiramente e volto a empurrar-me para a frente. Desajeitada, consigo dar outro passo e depois outro, não vou cair aqui! Mais um passo, ignora a dor, foca-te agora, vamos lá! Por milagre não caio, depois de uma série de passos atabalhoados recupero o equilíbrio mas recupero-me a mim também. Imediatamente deixo de estar simplesmente  a correr e começo a serpentear pelas árvores tentando fazer com que a minha trajectória seja o mais imprevisível possível. Volto também um pouco da minha atenção para o que os meus perseguidores dizem.


- Porra, tenho a certeza que lhe acertei na perna! - Diz um bastante frustrado.
- Hahahaha! estas gajas de hoje em dia correm muito pá, vão todas ao ginásio parecem porcas selvagens, levam tudo à frente.
- Eu tenho a certeza que lhe acertei, a gaja continua a correr depois de levar uma? - O primeiro, aquele com a voz mais fina, volta a insistir depois do seu companheiro o ter ignorado.
- Deixa de ser parvo, se lhe tivesses acertado já não estávamos a correr pelo meio do mato!


Eles preferem acreditar que eu não me feri, do que conceber que eu conseguiria correr assim, estão a menosprezar-me, é bom. Sorrio um pouco, antes de ouvir mais um disparo que acerta numa árvore mais à frente, imediatamente depois de eu mudar novamente de direcção e percebo que não posso eu cair no erro deles. Mesmo a esta velocidade conseguem não só acompanhar-me como fazer disparos extremamente precisos, além de que quando prestei atenção ao que diziam, não me pareceu que estivessem minimamente cansados. Isso só quer dizer uma coisa, que eles estão habituados a fazer isto.

4


Esta conclusão agarra-me a atenção, tenho de arranjar alguma solução. Desci a encosta demasiado rápido e descontroladamente, sem me aperceber do que se estava a passar. Não tirei qualquer ponto de referência e agora tento de alguma forma usar algo no terreno que me ajude a escapar, mas sem a luz do sol torna-se quase impossível. Resolvo parar de correr e escutar em meu redor. Fecho os olhos concentrando-me totalmente na audição. Passos de dois homens ouvem-se não muito longe de mim, terá o terceiro ficado com o Usil? Não posso pensar nisso, volto a focar-me, mas há um silêncio anormal nesta floresta, como se nada aqui vivesse sem ser as árvores e os arbustos. Um segundo depois um novo disparo acerta na vegetação, bem perto de mim. Sem tempo para mais, lanço-me novamente em fuga, continuo a descer na esperança de encontrar algum ponto de referencia, alguma alteração no terreno, talvez algum sitio onde me possa esconder.
Ao fim de largos minutos em fuga, o terreno começa a deixar de ser tão íngreme e a pouco e pouco vai-se tornando plano. Sem tréguas os meus perseguidores continuam atrás de mim, mas eis que começo a ouvir um som familiar, algo que me dá alento, um curso de água está por perto. Acelero imediatamente o meu passo, para o mais rápido que consigo, tentando ganhar alguma distância entre nós. O som da água intensifica-se à medida que corro e fico mais animada, não me parece ser um simples riacho, dá-me a ideia de ser algo maior, assim sendo tenho mais opções.
Vejo finalmente à frente uma abertura entre as árvores por onde a luz passa mais forte. O rio deve ser depois, pois a abertura entre as margens deve deixar passar mais a luz da lua. Abrando e escolho uma árvore perto da margem que eu consiga escalar facilmente. Passo junto a um dos ramos maiores no meu caminho até à margem. Diante de mim surge um largo rio cujas águas rápidas correm livremente pelo vale. Apesar das suas margens serem distantes, não me parece ser muito fundo pois consigo ver muitas pedras através das águas cristalinas que reflectem o luar como mil espelhos. Recuo com cuidado tentando colocar os pés no mesmo síto onde tinha pisado até chegar à árvore que tinha escolhido. Iço-me para cima de um ramo largo, puxando o meu corpo primeiro com os braços até conseguir passar uma perna, depois rodo sobre o tronco de forma a ficar com a barriga apoiada. Devido ao pouco tempo que tenho, rapidamente ergo-me e começo a escalar os outros ramos o mais silenciosa que consigo. Quando me encontro numa posição alta e bem camuflada por ramos, fico imóvel esperando.
Oiço as passadas pesadas e bem ritmadas  dos meu caçadores a aproximarem-se, gelo completamente. Se eles me virem acabou tudo, mas tinha de arriscar algo, se continuasse a fugir, nunca ia conseguir ajudar Usil. Não, esta é minha melhor opção. Vejo os dois homens aparecerem mesmo atrás do meu trilho, primeiro o mais gordo e baixo e depois o mais velho de cabelo grisalho. Mas como conseguem encontrá-lo tão bem quando eles também não têm luz?! O que raio se passa aqui?! Pensei que me tivessem seguido pelo som, mas desde que parei e andei para trás devagar, fiz muito pouco barulho. Deviam ter vindo mais devagar, menos confiantes, tentando captar os meus movimentos, mas não, movem-se sem hesitação seguindo facilmente as minhas pegadas. Quando se aproximam de onde estou, o meu coração bate descontrolado, já não tenho tanta certeza que vou conseguir que percam o meu rasto. Eles vão olhar para cima, vão perceber que as minha pegadas estão diferentes e vão olhar para cima e abater-me aqui! Vou saltar-lhes para cima, com a distração pode ser que os deixe o suficientemente descoordenados e que consiga ficar com a arma de algum deles. Vá tem calma,  respira fundo Lirocana, agora é para esperar. Sem parar eles passam por debaixo de mim e seguem até à margem.


- Não consigo perceber se ela atravessou o rio, a água é fria demais. - O mais gordo diz olhando para a outra margem.
- O trilho acaba aqui, vai à outra margem, vê se o descobres novamente. - Diz o mais velho, sem que nem por um momento as suas palavras parecessem um pedido.
O outro salta imediatamente para o rio e começa a fazer rapidamente caminho para a outra  margem. Em pouco tempo está do outro lado a procurar pelo chão de um lado para o outro. Passados alguns minutos regressa.


- Nada Goufrein, a gaja é esperta, deve ter ido pelo rio junto a esta margem, se tivesse tentado atravessar o rio mais na diagonal, agente tinha-a apanhado.
- Sim também me parece… vai para a direita seguindo a margem que eu vou para a esquerda.
- Parece-me bem.
- Depois de trinta metros se não encontramos nada regressamos.


Finalmente algo que corre bem! Os dois separam-se à minha frente e seguem caminhos opostos. Suspiro de alívio, o meu plano funcionou e agora faço o quê? O meu primeiro instinto é de correr para o carro novamente até ao Usil mas e se me deparo com o terceiro homem? Além disso eles queriam-nos para um ritual, o mais provável é que o tenham levado para algum lado, a não ser que isto seja o ritual… É tudo muito confuso, tenho pouca informação, o melhor seria escapar para a outra margem, agora que eles me estão a procurar deste lado, mas isso seria deixar  Usil à sua sorte até eu encontrar um sítio para ligar à polícia. Mesmo que consiga contactar a polícia, o que eles conseguiriam fazer até amanhã à noite? O melhor que tenho para lhes dar é um nome e as suas descrições físicas apuradas no meio da noite. Tenho de ficar e lutar.
Com esta realização forte no meu coração, desço do meu esconderijo e resolvo-me em seguir o que foi para a direita, aquele que é mais gordo e baixo, se chegar a uma luta física não tenho tanta desvantagem em relação ao seu alcance. Dirijo-me primeiro à margem e procuro por uma pedra que caiba bem na minha mão, mas que seja pesada o suficiente para desferir um golpe letal se for preciso. Embora essa não seja a minha intenção, preciso de o deter para lhe arrancar o máximo de informação que consiga. Quem são eles? Quantos mais são? Para onde levaram Usil?
Assim que escolho a minha arma, começo a avançar pelo meio da vegetação, silenciosa, evitando as zonas onde se encontram mais folhas, vendo bem se não quebro nenhum galho. A cada passo sinto sempre que me estou a denunciar, o som que produz parece que atravessa quilómetros, mas não posso vacilar agora! Destemida contínuo até sentir que já percorri pelo menos metade do caminho que eles tinham combinado e procuro um esconderijo onde ficar à espera do regresso do meu perseguidor para o emboscar.
Vejo um largo tronco deitado mais para a direita, mas parece-me demasiado distante do seu trilho. Talvez pudesse esperar dentro de água, mas a profundidade é pouca para me esconder aí também. Eis que reparo num arbusto perto de uma árvore, é pequeno mas se me encolher bem consigo passar despercebida. Além disso ele não está a contar que eu esteja ali, não vai estar à espera que a sua presa o esteja a caçar. Dirijo-me de pé ante pé até ao arbusto, coloco-me em posição de cócoras, encostada com a cabeça à árvore e fecho os olhos. Respiro fundo devagar expandindo os meus sentidos. Sinto o ar frio da noite a picar os braços ao descoberto, a minha blusa fina pouco faz para me aquecer. O som das águas a passarem entre pedras fazem um gorgulhar relaxante, que seria ideal para adormecer fossem outras as condições.
Finalmente, passos regressam na minha direção, tento diminuir-me mais, mas não arrisco mover-me e a fazer barulho, uma contradição eu sei, como se tentasse ser mais pequena com a mente. Abro os olhos e num instante ele passa por mim desinteressado, com desilusão no rosto. Antes que ele saia do meu alcance salto de onde estou. O tresmalhar do arbusto fá-lo estremecer, mas antes que se consiga virar acerto-lhe em cheio com a pedra na tempora, desequilibrado ele cambaleia mas não cai.


- AARRGGH! Sua cabra estavas aqui escondida era?! - ele vira-se para mim, com o seu rosto carregado de raiva.


Imediatamente estou sobre ele para lhe cortar o ângulo da pistola que levanta na minha direção. Violentamente desfiro outro golpe, desta vez sobre o pulso que segura a arma, partindo-o. A pistola cai ao chão. Gritando de dor e raiva mais uma vez, ele carrega sobre mim, tento rodar sobre o calcanhar para esquivar-me mas a sua velocidade surpreende-me. O embate tem uma força para a qual não estava preparada e projecta-me para trás, caio aturdida pela dor. Ele cai também mas rapidamente está sobre mim, tento lutar mas em vão, não contava com esta força e resistência avassaladora. Não contava que um homem que tem excesso de peso e mais velho conseguisse mover-se desta forma. Sentado sobre a minha barriga, ele aperta-me o pescoço com as duas mãos, embora só uma consiga fazer força devido à fratura. Graças ao seu agarro imperfeito, consigo recuperar algum ar. Agarro-lhe bem a manga do polo do braço direito e fazendo toda a força que tenho em mim contra os calcanhares, faço uma ponte para esse mesmo lado. Tanto pela surpresa como pelo facto de eu estar a imobilizar o seu braço ele não consegue ficar sobre mim, rolamos os dois pelo solo, invertendo a posição.  Em cima dele tenho libertar-me mas a sua mão esquerda permanece no mesmo sítio e aperta-me mais tornando-se quase impossível eu respirar. Olhando-me bem nos olhos ele sorri mostrando os seus dentes amarelados.


- Hás-de perder o ar cabra, e depois és nossa! - A sua voz apesar de mais fina, vem carregada de uma intenção maligna tão forte que nem penso mais.


          Tudo é automático para mim, ele não tinha como saber. Rapidamente alcanço a faca que está no seu cinto e sem hesitar passo-lhe a lâmina pela garganta, o spray da sua jugular deixa-me o rosto coberto de carmesim. A sua face transforma-se totalmente, toda a sua confiança dá lugar ao terror e desesperadamente coloca as mãos no corte numa tentativa fútil de parar o sangue que verte para fora de si a cada batimento do coração. Levanto-me enquanto ele ainda se contorce no chão para encontrar a sua arma, à medida que a apanho, volto-me para o encarar uma última vez. Ele tem ainda uma mão no pescoço mas estica a outra suplicante para mim, com os olhos cheios de lágrimas, trazendo-me à memória algo que já não me lembrava há muito tempo.


- Humpf, é sempre assim, na hora de morrer todos os homens parecem meninos assustados. Tiveste azar seu monte de merda, escolheste a cabra errada com quem te meteres. - Digo-lhe mesmo antes do seu último suspiro, espero que ele retenha bem as minhas palavras a caminho do inferno.


5


Sem tempo a perder tento retirar-lhe o cinto das balas antes que o seu companheiro venha até nós atraído pelos gritos. O seu peso dificulta-me a tarefa mais do que pensava e antes de conseguir libertar o cinto debaixo do corpo, um tiro passa a rasar! Instintivamente, jogo-me para o chão, com receio que outro disparo seja mais certeiro e, uma vez mais puxo o cinto. Desta vez coloco os meus pés contra o corpo inanimado e segurando na fivela faço força para mim deitada no chão. Finalmente o cinto desliza pelas presilhas das calças e fica em minha posse, outro tiro bate no chão, bem perto de mim. Rebolo rapidamente sobre o meu corpo até a um largo eucalipto para me proteger com o seu tronco. Guiando-me pelo som dos disparos aponto a minha arma agora com mais calma e tento ouvir os passos de Goufrein mas apenas o silêncio inquietante da floresta se faz sentir. Rapidamente aperto o cinto, coloco a faca no seu encaixe e fito atentamente a floresta à minha frente.
A escuridão demasiado opaca para discernir alguma forma com exatidão deixa-me sem opções. Sei que ele deve estar à minha escuta, quer que seja eu a cometer o erro de fazer algum movimento, estamos ambos a jogar o mesmo jogo mas é estranho. De alguma forma ele apercebeu-se que o seu companheiro estava morto, mas como? Desafia a lógica. O que acabei de matar, não tinha qualquer dispositivo de visão nocturna e quando estava em cima da árvore também não me pareceu que o outro tivesse. Mas tenho de esperar, qualquer atitude mal pensada é o meu fim.
           Pelo menos uns quarenta minutos já passaram e nem um som, nada. Este homem tem de ter uns nervos de aço, ninguém sem experiência de combate ficaria tão calmo numa situação destas, a menos que… claro o tempo está do lado dele! Ele deve ter pedido ajuda, neste momento, vários podem estar a aproximar-se da nossa posição. Tenho de fazer algo acontecer. Olho em meu redor tentando avistar algo que me dê uma ideia. Perto de mim, encontra-se uma pedra, talvez se a atirar o som que produz possa desencadear alguma reação em Goufrein. Devagar, ainda sentada no chão, rodo-me para conseguir chegar melhor à pedra mas assim que me estico para a apanhar ele acerta-me imediatamente com um tiro no ombro esquerdo. Cerro os dentes e volto-me a encolher no meu esconderijo, estúpida, estúpida! Dor espalha-se pelo ombro até ao braço e à omoplata. Levo a mão à ferida e tacteando devagar, tento encontrar a ferida de saída. Por sorte encontro-a, se a bala tivesse ficado alojada dentro do meu corpo, seria tudo muito pior. Coloco a arma no coldre e retiro a faca, cada movimento mais dificultado, rasgo a minha blusa, improvisando uma ligadura que aperto debaixo do sovaco. Não posso ficar mais aqui, o tiro não muda nada, penso em voz alta. Arriscando tudo, atiro-me de um salto a rolar pelo chão em direção à margem. Vários disparos que soam pelo ar vão acertar em folhas e terra mas nenhum em mim. Eu riposto atirando  dois sobre a zona de onde julgo que Goufrein se encontra, por forma a inibi-lo e mais uma vez me lanço em fuga.
Novamente balas voam à minha volta, sem hesitar, corro a toda a velocidade até à margem, ramos e folhas voltam a maltratar-me enquanto passo rapidamente. Vejo a luminosidade que emana do reflexo da luz no rio, sem parar salto para as águas que imediatamente me chegam aos joelhos, corro novamente o mais rápido que consigo, agora muito mais dificultada pela água. Quanto mais avanço, mais fundo e forte se revela o rio. Quando estou com água pela cintura sei que ele vai chegar à margem antes que eu consiga lutar para fora da corrente e de repente sei o que fazer. Lanço-me sobre água fria e mergulho, deixando-me ir sou levada pela corrente sem esforço.
Só mesmo quando já não aguento mais arrisco a vir à superfície para respirar, olho para a margem mas não vejo ninguém, será que ele não me perseguiu ou simplesmente está na orla da floresta esperando ver algum movimento? Fui demasiado arrogante, pensei que conseguiria recolher informação passando para o ataque, mas houveram vários factores com que não contava. Objectivamente sei que há coisas que não tenho como explicar, aquele que matei, tinha uma força e rapidez como eu nunca vi e a visão deles é perfeita durante a noite. Quanto mais eu tentei combater este último facto mais me expus ao perigo e em última instância, foi o que fez com que me ferisse. A partir deste momento tenho de deixar de supor seja o que for!
Deixo-me ir pelo rio mais uns minutos, até que resolvo ir para a margem oposta de onde vim, deslizando sobre a água. Empurro o fundo com os pés e com esforço lá consigo atravessar a parte mais central onde a corrente é mais forte até à terra. Silenciosamente, emaranho-me na vegetação sempre com atenção à outra margem e o mais rápido que consigo sem fazer barulho, avanço, repensando o plano.
O melhor que posso fazer por Usil é tentar chegar a uma localidade e contactar a polícia. Penso enquanto me permito sentar sobre uma pedra grande e descansar um pouco. O frio que se instalou em mim desde que mergulhei, faz-me tremer sobre a brisa da noite, mas nem tudo é mau, pois o frio também me atordoa a dor no ombro. Após uns minutos de descanso, levanto-me para seguir caminho, preciso de me mover para tentar combater a hipotermia, mas sem ideia para onde ir, sigo em frente. Sei que talvez devesse seguir o rio mas por alguma razão sinto-me impelida a seguir em frente.
Sigo pela floresta novamente guiada por esta intuição. Se há algo que aprendi nas missões que correm mal, é de não deixar de seguir uma sensação destas. Quando tudo falha, há sempre algo que nos guia, um género de instinto primal de sobrevivência. Foco-me neste último pensamento, sobreviver. O ritmo rápido dos meus passos juntamente com o ar que sai e entra nos meus pulmões torna-se numa cadência hipnotizante, perco-me do tempo e de tudo o que se passou.


6


Envolvida no breu, começo a avistar formas estranhas que me puxam de volta ao pensamento. Agacho-me e tento perceber o que vejo. Formas largas de tamanhos variados espalham-se um pouco por todo o lado, à minha frente, nesta parte da floresta que já não é tão densa. Sem conseguir recolher mais informação, e sem mais opção, decido aproximar-me baixa e devagar, com a faca na mão. Já que agora é inútil usar a pistola, pois a pólvora das balas está molhada. A pouco e pouco a forma que está mais perto de mim, torna-se perceptível, para meu espanto é um automóvel, com a frente amolgada. Encostada ao pára-choques, espreito de um lado e do outro. As outras formas são também outros automóveis que se encontram ali abandonados. Pelo que consigo entender todos acidentados. Algo terrível começa a emergir na minha mente, antes que me agarre, abro rapidamente a porta do carro empoeirado e começo a vasculhar por algo.
Há um porta moedas no banco do passageiro, no porta luvas uma bolsa com cds. Dirijo-me ao porta bagagens receando que a minha suspeita se concretize, assim que o abro vejo uma mala de viagem, tenho a certeza. Estou no meio de mais de duas dezenas de carros acidentados cujos pertences das pessoas que os ocupavam ainda estão presentes, isso só quer dizer uma coisa. Toda esta gente passou pelo mesmo que eu. Estes monstros causam o acidente de alguma forma, depois divertem-se a caçar os que fogem em favor de um qualquer ritual doentio. A única coisa que resta são os carros e pertences que aqui são despejados. O ódio cresce dentro de mim, não sei como, nem quando mas vou-lhes fazer pagar.
Vasculho por toda a parte algo útil e não é em vão. Com um estojo de primeiro socorros, uma agulha que encontro numa caixa de costura, desinfecto e couso o melhor que consigo a minha ferida. De seguida faço um penso com algumas ligaduras. Troco as minhas roupas molhadas por outras que encontro, que embora cheirem muito a mofo, começam imediatamente a aquecer-me. Visto  também um grande casaco de penas que fica dois números acima do meu.
É então que me apercebo que vou ter de lutar novamente. Ao longe começo a ouvir o som de cães a ladrar. Rapidamente improviso outra arma, com a lâmina de um patim de gelo e um pau, faço um machado. Corro de carro em carro à procura de mais alguma coisa que possa usar mas estou a ficar sem tempo. Enquanto ando urgentemente de um lado para outro para encontrar qualquer coisa útil, deparo-me com uma estrada de terra batida que fica na parte mais atrás onde se encontram os últimos carros. Ao olhar para a direita vejo lanternas também, além do som do ladrar dos cães que se vai intensificando. Regresso à minha tarefa. Encontro uma mochila, onde coloco um cantil, o estojo de primeiros socorros e uma corda. Sigo para a minha esquerda em direção à estrada, novamente maquinando um plano de sobrevivência, lembrando-me que tenho uma coisa a meu favor no meio de tudo o que tenho contra. É que eu sei sempre onde é que eles vão estar; atrás de mim.
Tenho esta última frase na minha cabeça quando estou de frente para o caminho de terra, que devo seguir, mas não começo a correr. Tenho aquela sensação esquisita que se tem quando estamos a esquecer-nos de algo mas não sabemos o que é. Viro-me lentamente e observo todos aqueles carros que ali se encontram. Penso na angústia que aquelas pessoas devem ter sentido nos seus últimos momentos, vítimas desta armadilha letal. Será que foi sempre tão fácil fazer isto a tanta gente? Ninguém conseguiu lutar de volta ou simplesmente fugir? E se eu estou aqui porque eles querem que eu esteja? Mesmo que não contassem que eu conseguisse matar um deles, não poderia ter sido sempre o objectivo deles trazer-me aqui? Agora que penso nisso, aqueles dois estavam muito calmos quando eu aparentemente tinha desaparecido e os cães que aparecem exatamente  do lado direito desta estrada como se me estivessem a dirigir para a esquerda… Eles queriam que eu visse isto! Que eu sentisse o desespero de estar perdida e separada de quem amo, que ao encontrar este cemitério, perdesse qualquer esperança, ou que desatasse a correr pela estrada na esperança que fosse dar à salvação.
Volto para trás determinada a mudar o destino que me espera, embora não tenha muito tempo, pelo som dos latidos dos cães, sinto que consigo fazer o que quero. Tenho de conseguir. Começo a procurar um carro que me pareça mais recente e cujo depósito esteja oposto ao lado de onde eles vêm. Mesmo com a pouca luz consigo encontrar uma carrinha monovolume azul escura ainda com uma cadeira de bebé no banco de trás, mas não deixo que este pormenor me prenda. Na traseira do veículo, deito-me no chão, do lado do depósito e coloco a ponta da minha faca contra a superfície metálica que se encontra  debaixo do carro, depois com o ouvido contra o cabo, bato com o nó do dedo duas vezes para ter a certeza. Está pelo menos meio cheio, o que num carro destes significa muito.
Vou para outro carro, um mais distante, e enquanto caminho retiro da minha mochila o meu cantil. Uma vez lá  dispo o meu casaco depois a minha blusa e deito-me novamente no chão. Com a faca em punho uso-a para abrir um furo no depósito deste carro batendo com uma pedra contra o cabo. Assim que o líquido começa a verter coloco-o cantil para o recolher, uma vez cheio, ensopo a minha blusa e levanto-me de seguida de regresso até ao monovolume.
Chegando ao meu destino, com ajuda da antena que arranquei de um outro veículo, enfio pelo tubo do depósito uma manga da minha blusa e deixo-a pendurada a tocar no chão. Depois despejo o cantil fazendo um rasto com o líquido desde a camisa até à parte lateral de um todo o terreno que se encontra a uma distância que considero segura. Neste momento os latidos encontram-se muito próximos de onde estou, oiço também vozes de homens que falam animados entre si, contudo ainda me falta uma parte essencial, a ignição! Começo desesperada a vasculhar um pouco por toda a parte, em busca de um isqueiro, mas não consigo encontrar nada no primeiro, nem segundo, nem no terceiro, mais e mais eles aproximam-se, os focos das suas lanternas já bem perto. De repente, vejo um carro que tem equipamento de campismo e vou para lá o mais rápido que consigo. Vasculho o conteúdo das várias malas num frenesim, com o coração apertado, se não conseguir encontrar um isqueiro a tempo, não vou conseguir fugir, eles simplesmente soltam os cães e… sim! Encontrei! Passo a correr até onde tinha deixado a minha roupa molhada trazendo-a comigo para o monovolume. Abro de rompante a porta de trás e atiro-a lá para dentro, indo aterrar sobre a cadeira de bebé, sem perder mais um segundo regresso ao todo terreno e rebolo pela erva para debaixo do veículo. Eles estão mesmo aqui, consigo ouvir as suas vozes perfeitamente, soltando piadas entre si.


- Epa não te ponhas à minha frente seu vesgo!
- Não fui eu oh rodas baixas, não vês que o canito me puxou? Deve ter apanhado o cheiro da velhaca.
- Espero que não, só me apetece é sair daqui, não queria agora andar atrás dela, ainda por cima a gaja é maluca.


Reconheço a voz do que fala por último, mesmo que houvesse alguma dúvida de quem eram, agora sei, este era o terceiro homem que estava no local do meu acidente. Guiados por um dos cães, eles deslocam-se para o monovolume, mas não os consigo ver, as luzes das suas lanternas cegam-me e apenas me deixam ver vultos.


- Olha aquela porta está aberta, estava assim antes?
- Sei lá, mas o teu cão está a ir para lá.
Eles atravessam por entre os veículos até a minha armadilha, um dos cães salta do chão para o banco e sei que eles estão o mais junto ao carro que alguma vez estarão. De repente é como se o tempo ficasse muito devagar, olho para o isqueiro que tenho na minha mão focando a ponta que neste momento é o meu Deus. Pressiono o botão de uma vez só e uma linda chama amarela nasce diante de mim, iluminando a erva verde molhada de gasolina que está à minha frente. O meu braço vai para frente, a chama toca no líquido. Por um instante nada acontece e eu gelo da cabeça aos pés, tudo para nada penso, mas então a gasolina inflama, deferindo uma linha de fogo pela erva até à camisa. Os homens ainda falam e riem quando a chama entra para o depósito, num instante tudo muda. Uma violenta explosão deflagra e todo aquele espaço ilumina-se na noite, estilhaços voam por toda a parte, oiço-os baterem noutras viaturas.
            Saio debaixo do carro triunfante, sentindo que finalmente estou a lutar de volta. Quando, do meu lado esquerdo, circundando a carrinha que arde aparece um dos cães envolvido pelas chamas com os olhos brilhando num tom maligno de vermelho. Surpreendentemente, ele carrega sobre mim sem que as chamas o atrapalhem. Levanto o braço esquerdo a custo, a dor do ferimento a cortar fundo e deixo que ele abocanhe o meu antebraço com a esperança que o casaco de penas diminua os danos. Não me oponho à sua força e enquanto caimos aproveito para espetar a faca na sua barriga. Quando embatemos no solo puxo a faca para cima rasgando-lhe do abdômen até ao peito, mas o animal continua sobre mim tentando morder-me a garganta. Retiro a faca rapidamente espetando-a de lado no seu crânio, fazendo com que ele finalmente pare e caia para o lado ainda ardendo.
            Meio atordoada com a situação bizarra levanto-me, sentido que o meu antebraço ficou em muito mau estado. Antes de conseguir avaliar como está, oiço gemidos. Cautelosa, dou a volta ao carro em chamas de faca na mão, temendo o que pode estar à minha espera. No chão em chamas completamente carbonizados estão os corpos de dois cães e dois homens. Imediatamente olho em meu redor, onde está o homem que falta? Procuro entre as sombras algum movimento, aterrada com a possibilidade de voltar a ser atacada, os gemidos ouvem-se novamente e eu volto-me para os encarar. De trás de uma árvore cambaleando aparece o homem que faltava. Fumo ainda se eleva do seu corpo totalmente queimado, os seus lábios já não existem,  os olhos embora abertos e fixos em mim têm as retinas cinzentas completamente destruídas.


- Eu sinto o teu cheiro e oiço quando respiras testemunha, eu próprio te vou enviar ao meu senhor! Achas que és especial? Que és a primeira que luta? Vocês são menos que presas para nós. As presas sabem-se defender, vocês são cordeirinhos que vão em direção para o matador! - Diz com os seus olhos carregados de ódio, lançando sobre mim uma onda de terror que me rouba completamente a razão.


Ele avança na minha direção como se me conseguisse mesmo me ver e por um momento, fico paralisada. Isto não pode estar a acontecer, o que se está a passar ? Quero sair a correr mas vejo-me  a recuar, com a faca bem esticada à minha frente tremendo, eu que… isto não é possível, não pode. Lágrimas correm-me pelo rosto, o medo toma-me, não dá, eu fui muito longe, de certeza que tentei muito mais que todos os outros, mas como posso conseguir agora…


- Afasta-te de mim! Porquê eu? Não podiam ter-nos deixado passar? - Grito desesperada sem pensar que assim ele ainda me encontra melhor.
- Hahahaha! Dizem todos o mesmo!


As suas palavras cortam fundo, continuo a recuar aos tropeções enquanto que este monstro chega cada vez mais perto de mim. Finalmente fico sem espaço para continuar, atrás de mim chapa fria bloqueia a minha fuga. Olho por cima do ombro e vejo que estou de costas voltadas para uma viatura qualquer, podia ser outra de tantas que aqui estão. Lembro-me do carrinho de bebé no monovolume, aquela criança nunca teve como sobreviver a isto, tão inocente... Veio aqui ser brincadeira destes fanáticos. E os pais dela, o será que sentiram quando não conseguiram protege-la? Eu fiz um machado, recordo-me, tentando recuperar-me. Sim eu fiz um machado e deixei-o no chão, junto ao carro de onde tirei a gasolina!
De alguma forma consigo recuperar deste transe que me prendia, os seu braços esticados bem perto de mim esbracejando no ar, lembram-me que ele não me vê. Encolho-me para a esquerda e corro para o meu machado. Ele grita de raiva quando me esquivo do agarro dele, mas sente para onde vou e começa logo a vir no meu encalço em passo rápido. Consigo ouvi-lo a bater em obstáculos que o atrasam, mas não deixo que isso me torne complacente, acelero, até e chego rápido ao local. Com o machado na mão reflito no que se passou. Ele deve de ter lançado algum tipo de influência sobre mim, se analisar bem a situação eu estou em vantagem, mas não vou cair no erro de pensar que está acabado. Ele disse que me ouve e que consegue sentir o meu cheiro, vamos ver o quão bom é ele a farejar.
            Ele demora a chegar até mim, de braços no ar. Reparo que tem estilhaços cravados no corpo, apesar de não morrer dos ferimentos como devia, a sua mobilidade é muito reduzida. Imóvel espero que ele se aproxime do meu alcance. Assim que ele o faz desfiro um golpe circular bem baixo à altura da sua rótula, ele emite um grito de dor e cai com o joelho destruído.


- Achas que faz diferença o que vais fazer? Eu vou lá estar para te entregar ao meu senhor!
- Tu?! Eu vou-me certificar que não estarás!


Com toda a força e apesar das dores, agarro o machado com as duas mãos acima da cabeça acertando-lhe violentamente com a lâmina no pescoço. Rapidamente elevo novamente o machado e volto a cortar mais fundo, sentindo que bati no osso com este golpe. Mais uma vez, penso. Repito o movimento elevando os braços e deixando-me tomar pela raiva grito enquanto lhe corto finalmente a cabeça. Pego-lhe, lembrando-me da promessa que lhe fiz, vou até ao carro que ainda arde e atiro-a para as chamas.


- Vamos lá ver se agora apareces em mais algum lado. - Digo desafiante.
O cansaço e a dor tentam chegar até mim, no entanto, eu agarro-me a esta raiva que me invade até ao fundo da minha alma. Recomeço a andar, desta vez não como um cordeirinho, vou para o caminho de terra batida e avanço por onde eles vieram.

7



O ar frio da madrugada queima-me por dentro, enquanto no limiar das minhas forças tento manter um ligeiro passo de corrida. A fome e o sangue que perdi estão a acabar comigo. Apenas parei uma vez desde que saí do cemitério de carros mas não quero arriscar-me a fazê-lo outra vez, mantenho-me só devido à minha determinação.
A estrada ganha uma curva a pouco e pouco esticando-se para lá da minha visão. Quando penso que nada mais resta no mundo, reparo que está algo à beira da estrada. A forma é consistente com o que parece ser uma carrinha pick up, deve ser o que aqueles três de há bocado usaram para chegar até aqui. Avanço nervosa porque sei que não andei assim tanto, pareceu, porque estou no meu limite e receio que a qualquer momento, Goufrein possa aparecer atrás de mim. De súbito uma sombra surge pelo meio da vegetação, correndo muito rápido, e vem colocar-se no meio da estrada, entre mim e a viatura. Mesmo na escuridão consigo perceber quem é, mas não pode ser… eu cortei-lhe a garganta, eu vi-o morrer!


- Então cabra, estás admirada? Pensavas que te tinhas visto livre de mim?
- Como é que... Olha sabes que mais? Esquece vamos fazer isto ou não?


Nada resta dizer, meio confuso ele observa-me. Talvez pensasse que eu ia desistir ou gritar. Certamente seria uma resposta adequada para outra pessoa qualquer, mas com tudo o que já vi, o que se impõe agora é acabar com este traste de uma vez por todas e sair daqui. Só mais um pouco vá lá. Imploro ao meu corpo. Ele avança seguro para mim sem nada nas mãos, vendo perfeitamente o meu machado, faz-me crer que está confiante, que não necessita de mais para me derrotar. Sem pensar mais, dou um salto para trás e começo a correr na direção oposta.


- Hahahaha! Então, para onde foi toda a coragem? Achas mesmo que vais saltitar daqui para fora? Realmente já não há mulheres como antigamente, o que aconteceu ao “ até que a morte vos separe”, nós temos o teu namorado sabes?  - Ele utiliza o Usil para me tentar provocar, quer que o enfrente, ou que o questione, mas eu não mordo o isco.


Foco-me em ganhar mais velocidade, a dor dos meus ferimentos lateja com uma intensidade incrível, contudo consigo arranjar forças num recanto de mim que há muito não precisava. Atrás de mim os passos aproximam-se, ele  continua a ganhar terreno. Imediatamente, decido sair da estrada indo para minha esquerda, emaranhando-me pela floresta. Saltando entre as árvores e pedras a minha agilidade dá-me uma pequena vantagem e faz-me aumentar um pouco a distância entre nós, mas a sua persistência assustadora não me dá tréguas. Passo a passo, ele chega-se cada vez mais perto de mim, começo a duvidar que vou conseguir, estou sem energia nenhuma, sinto-o perfeitamente, só pela minha vontade ainda me mantenho a correr, mas tudo isso tem limites, sinto o corpo a deixar de responder, mais um pouco por favor, só mais um pouco.


- Corre, corre cabra, eu até estou a gostar! Pareces estar cansadinha, queres parar para descansar? - Odeio a forma como ele usa a palavra cabra, as sílabas saem de uma forma tão distorcida que parece ter um significado próprio, ainda mais detestável  quando ele a prenuncia.
Finalmente a minha mochila! O alívio toma-me assim que a vejo pendurada no ramo onde a deixei. Conforme passo por ela, salto e atiro-me imediatamente para a direita, e mesmo antes de chegar ao chão oiço o grande estrondo que o meu perseguidor faz quando tropeça na corda e cai sobre as quatro lanças de madeira que fixei ao chão na diagonal.
           Espreito por cima do ombro e vejo que armadilha funcionou na perfeição, ele está completamente empalado. Um dos paus partiu com o peso, mas os outros felizmente mantiveram-se. Levanto-me a custo, exausta, sentindo que pela primeira vez estou um passo à frente deles. Ele ainda vive, vejo-o arfar mas nada diz. Aproximo-me expectante, e cuidadosamente empurro ligeiramente com o pé um dos paus que o trespassa pelo estômago .


- GRRRRRAAhhggg! Apanhaste-me bem sua cab… aaaaaaaarrghh! - Volto a empurrar a madeira antes que ele acabe de falar.
- Queres me chamar o quê mesmo? Vamos fazer assim, sempre que me deres uma resposta boa, eu não toco aqui pode ser? - Digo apontando com o machado para as três lanças que ainda estão bem firmes.
- Achas que te digo alguma coisa?! - Ele grita-me enraivecido.
Para meu espanto, ele agarra com as mãos duas das lanças e começa a empurrar-se para cima, em agonia, grita terrivelmente mas isso não o detém de continuar. Que força sobre-humana. Instintivamente, seguro o meu machado com duas mãos e acerto-lhe com tudo o que me resta contra a base do crânio, em movimento descendente. O corte quebra-lhe a coluna e ele pára de se mexer. Mas eu não. Só quando o som seco da sua cabeça bate na terra eu volto a mim, a tremer de raiva. Este jamais fará mal a mais alguém.
Volto novamente até à carrinha pick up. Cada passo uma tortura, desejando que mais nada aconteça. Diante do carro, quase que parto o vidro da janela com o cabo do machado, quando me lembro de verificar o puxador da porta. Esta abre-se e eu não consigo deixar de sorrir. Quanta  arrogância. Entro e até as chaves estão na ignição, contavam mesmo que tudo corresse lindamente. Sem perder tempo ligo o carro e dou meia volta, acelerando descontrolada dali para fora. Rapidamente chego a um entroncamento, onde posso seguir em frente ou virar à esquerda. Lembrando-me mais ou menos das voltas que dei, depreendo que devo virar à esquerda. Não passa muito tempo antes que eu chegue a uma ponte de madeira que passa por cima do rio que atravessei, esta parece-me velha mas segura e conforme a passo, volto acelerar. A estrada torna-se sinuosa e apercebo-me que subo a encosta novamente. Por fim chego ao alcatrão, viro imediatamente para esquerda e não consigo deixar de chorar.

8


Passam apenas alguns minutos quando vejo a placa a anunciar a chegada à aldeia Miradouro. Sinto a ansiedade de estar perto de encontrar ajuda. Assim que surgem as primeiras casas, eu encosto a carrinha à estrada e vou a correr até à porta da casa que está mais perto. Bato violentamente pedindo auxílio e só paro quando uma voz feminina me responde.


- Quem é a esta hora?! - A voz interpela-me com irritação.
- Por favor minha senhora abra a porta, algo terrível aconteceu! - Suplico, as lágrimas correm-me incontrolavelmente pela cara.


Uns segundos passam e percebo que ela deve estar a ver-me pelo orifício da porta, o que vê é suficiente. O meu estado deve ser tão lastimável que ela nem pensa duas vezes e abre a porta. Conforme esta abre vejo uma velhota enrolada num robe, talvez com os seus setenta anos, de olhar lívido.


- Meu Deus minha querida, o que se passou contigo? - Diz-me visivelmente perturbada com a minha visão.
- Eu estive num acidente, minha senhora, mas não foi só, também apareceram uns homens que me atacaram e raptaram o meu namorado. Por favor, por favor deixe-me usar o seu telefone e ligar à polícia.
- Ai valha-me deus, claro, entra minha linda, eu levo-te ao telefone. Desculpa não estou em mim, como é possível alguém fazer isto a outra pessoa.
- Obrigado, nem sei o que dizer. - Digo soluçando, nem acredito que acabou.
Ela vira-se e segue por um corredor apertado. Eu sigo no seu encalço entrando na casa pitoresca. No fim do corredor, aparece uma sala com um grande cadeirão e um sofá de três pessoas virado para uma televisão que está na parede oposta a mim. À minha direita jaz uma lareira apagada. Ela puxa-me para o sofá, e de uma mesinha que se encontra junto à parede da porta por onde entrei, traz um telefone que me dá para a mão. De súbito abana a cabeça como se se tivesse lembrado de algo e volta à mesa. Abre uma gavetinha e tráz de lá uma pequena lista telefónica que me dá para as mãos aberta. O número da polícia. Marco os números com as mãos a tremer, ainda a chorar,  a velhota aperta as suas mãos em ansiedade, ao me observar.
          Falo com uma senhora que me diz que vão mandar imediatamente uma viatura ter comigo. Um enorme peso sai de cima de mim quando desligo o telefone, o que lhe disse já nem me consigo recordar. Fecho os olhos e encosto-me para trás, permitindo-me relaxar pela primeira vez desde o acidente.


- Menina, desculpa queres que te traga algo? Um chá ou um copo de água? - A voz da senhora sai baixinha e terna.
- ...a não quero dar-lhe mais trabalho, já me ajudou tanto.
- Ora essa minha querida, vou buscar-te um chá, tens preferência?
- Não, eu.... eu agradeço qualquer um.
- Ótimo vou buscar de camomila, acho que as duas precisamos de nos acalmar.
Eu deixo-me ficar ali sentada, sem me mexer, aliás acho que se tentasse nem conseguia. Sem dar pelo tempo passar, a senhora regressa com um tabuleiro nas mãos que trás um pequeno bule branco com os rebordos pintadas de azul claro, e umas chávenas do mesmo conjunto. Serve as duas chávenas e entrega-me uma que levo minha à boca devagar. Assim que o líquido me passa pela boca e desce a garganta é que eu percebo o frio que tinha. O calor do chá dá-me alento e sinto-me a rejuvenescer por um momento. Olho de volta para senhora, apercebo-me envergonhada, que estava tão deliciada a beber a minha chávena que nem agradeci.


- Obrigado, nem sei como lhe agradecer, este chazinho está muito bom. - consigo fazer um sorriso, enquanto ela me olha estranhamente expectante.
- Ainda bem minha querida, agora está tudo bem, a polícia vai chegar e eles vão-te ajudar, vais ver. - Ela tenta reconfortar-me.


Sinto-me a ficar muito cansada, acho que finalmente tudo o que passei está a derrubar-me, as minha pálpebras começam a pesar e ao longe ouço uma campainha deve ser a polícia. Quero levantar-me mas tenho as pernas tão pesadas que deixo-me ficar. A senhora pousa a chávena em cima da mesa rapidamente e sai para ir abrir a porta. Vejo-a entrar para o corredor, a minha visão torna-se turva. Inclino-me para a frente para por a minha chávena ao lado da outra e reparo que ela não bebeu da dela. As vozes da senhora e do polícia aproxima-se de que parecem-me ser muito longe, só consigo discernir o que dizem quando entram na sala.


- Isto é uma vergonha Goufrein, noutros tempos isto nunca teria acontecido. - A voz bondosa de outra hora da velhota torna-se amarga e ríspida.
- Desculpe Ófélia, ela deu-nos mais trabalho do que esperávamos, matou pelo menos três dos nossos e ainda não consegui falar com Comar. - Para meu terror o homem de uniforme é aquele mesmo homem de cabelo grisalho, Groufrein, o que me atirou no ombro. Está diante de mim, ele é a polícia.


Levanto-me imediatamente e recuo para trás, aos tropeções vejo tudo andar à roda, não me consigo equilibrar, o chá, ela não bebeu o chá, ela drogou-me!


- Oh minha querida, foste levantar-te para quê? Assim vais cair no chão, não era melhor adormeceres no sofá?
- Sabe Ófélia, esta juventude de hoje dia é demasiado impaciente.


Tento encontrar algo para me defender mas já é tarde demais, consigo ouvi-los a rir, enquanto os meus joelhos cedem, sinto-me em queda mas nunca mais embato em nada...


9


Longe oiço um burburinho, palavras talvez. A dor vem primeiro, a minha cabeça doi tanto. Quero abrir os olhos mas estou fraco, muito fraco. As palavras tornam-se perceptíveis, um conjunto de sons repetem-se numa língua que desconheço. Sinto-me a recuperar rapidamente, a dor na minha cabeça desvanece, alguém me está a curar? Abro os olhos. Tenho a minha mão direita algemada ao braço de uma cadeira de madeira e estou amordaçado. Boa. Levanto a cabeça e vejo um homem de vestes negras e rosto solene a segurar um medalhão à minha frente. Merda, Eu reconheço as inscrições, isto não é nada bom! Olho em redor; vejo que estou num salão de festas amplo ornamentado com candelabros de pé alto, panos de seda vermelhos nas paredes e no tecto, dão-me a sensação que estou numa tenda. O brilho das luzes por detrás das lâmpadas do tecto dá uma luminosidade demoniaca à sala. O que condiz com todas pessoas ajoelhadas com mantos pretos que vejo ao meu redor. De mãos entrelaçadas em frente do seu rosto rezando. O homem à minha frente termina o encantamento e olha-me satisfeito.


- Agora sim, uma vez que recuperaste os sentidos  podemos começar. Tragam o outro sacrifício e as testemunhas. - Isto não está a soar nada bem, pensa Usil.


Conforme ele sai da minha frente consigo ver que estou sentado a uma mesa quadrada onde há mais três cadeiras, uma em cada lado. Ao centro está um cristal negro em cima de um prato de latão, onde estão cinco velas negras acesas e um punhal com uma pega em ouro muito trabalhada. De uma sala da parte detrás entram forçadas em braços por membros deste culto, três pessoas. Dois rapazes novos e depois, uma figura feminina que demoro a reconhecer. No meu peito cresce uma fúria incrível. Lirocana está cheia de vergões na cara, sangue pinga-lhe do antebraço esquerdo e o seu ombro também está manchado de sangue. Nos seus olhos amendoados e escuros consigo ver o quanto sofre, parece-me tão frágil. O que lhe fizeram! Grito, mas a minha mordaça não me deixa falar. Quando a sentam ela olha-me culpada. Não Lirocana, eu sei que lutaste tudo o que podias, isso vê-se perfeitamente. Tento transmitir-lhe os meus pensamentos com os meus olhos.


- Compatriotas, amigos, estamos aqui reunidos para saudar o nosso senhor Malacar! Nesta ocasião de festa pelas dádivas que nos concede, agradecemos-lhe com o ritual das testemunhas. A ti Malacar, entregamos as suas almas! - O homem que me curou fala eloquentemente para todos estendendo os braços para o ar.
- Louvado sejas! - Todos repetem em uníssono.
- A ti que és sacrifício, o que pedes ao poderoso Malacar? - Pergunta o homem a um dos rapazes a quem tira a mordaça da boca. - Finalmente sinto um pouco de esperança.
- Por favor, deixem o meu irmão ir, fiquem comigo, mas… - Detrás do rapaz, o homem com o punhal na mão corta-lhe a garganta. O sangue vermelho corre rápido e em grandes quantidades. Em segundos o rapaz está morto, para terror do seu irmão que chora desesperado preso à cadeira e para júbilo de todas os que estão à nossa volta que gritam de alegria.
O homem dá a volta à mesa e eu fecho os punhos, quando ele passa pela Lirocana para ir pôr-se atrás do outro rapaz.


- E tu que és testemunha, o que viste? - O homem pergunta desta vez, com o tom doce como se quisesse embalar uma criança enquanto lhe tira a mordaça da sua boca.
- aaahhhhh! porque? Vocês são uns monstros! espero… - E novamente o homem corta o pescoço antes que ele consiga acabar e todos gritam de alegria.  
- Lovado seja MALACAR!
O homem vem na minha direção e fico tão aliviado. Este é um ritual de sacrifício eles estão muito à vontade no que fazem, há plásticos no chão, o que significa que já o fizeram inúmeras vezes.


- A ti que és sacrifício, o que pedes ao poderoso Malacar? - Ele repete nas minhas costas, enquanto tira a minha mordaça.
- ILUMINA SANCTA!!


Grito em plenos pulmões, as luzes do tecto começam a brilhar com a luz sagrada da aurora e todos na sala começam a gritar. Cada um deles corrompido pelo demónio Malacar, ardem quando a luz do meus encantamento lhes toca. Antes que eles se recuperem, eu faço as minhas algemas abrir com uma palavra, levanto-me da cadeira e salto para cima da mesa correndo para o centro. Uma vez lá, com a minha mão direita sobre o cristal negro, ligo-me a todas as almas que ali foram sacrificadas. Sinto por um segundo a fúria e terror de centenas e quase enlouqueço!


- Chamo aqui todos aqueles que neste ritual perderam a vida, que hoje seja o dia em que a vossa justa vingança seja concretizada! MATERIALIZIUM ESPIRITUS! Grito libertando o todo o meu poder.


As velas apagam-se e as luzes do tecto começam a piscar intermitentemente até que rebentam uma de cada vez. Finalmente todos param de gritar mas ninguém ousa dizer algo, todos sentem o peso abafado do que se aproxima. De súbito todas as velas se acendem novamente.


- Maldito vai…  


           Antes que o homem termine, diante dele surge a figura translúcida de uma criança vinda do chão, um amável sorriso espalha-se pela sua cara. Num segundo a cara contorce-se para uma visão hedionda, que mais parece saída de um pesadelo. Num instante a sua mão pequena trespassa o peito do homem e quando ele a puxa, o coração dele encontra-se na sua mão. O homem cai inanimado e todos começam a gritar. Em pânico, correm para as portas principais do salão, mas assim que as tentam abrir estas trancam-se. A criança no meio da sala com o coração na mão ainda quente a fumegar, começa a rir alto. Primeiro numa voz fina de criança, mas que depois distorce completamente ficando num tom grave fantasmagórico. Vindas de todo o lado, outras vozes se juntam, o som torna-se ensurdecedor, muitos tapam os ouvidos em desespero. De um momento para o outro, centenas de figuras entram pelas paredes, pelo tecto e pelo chão num turbilhão terrível. A cada pessoa que tocam levam algo. Um braço, uma perna ou um qualquer outro órgão. Há alguns que se juntam e desmembram totalmente uma pessoa que se encontra mais isolada. Não há por onde fugir, os gritos e os risos misturam-se e há sangue por toda parte. Por um instante quase sinto pena deles, mas depois lembro-me que cada alma que aqui está, encontra-se aqui por causa destas pessoas.
Corro por cima da mesa até à Lirocana sem me prender mais por este espetáculo terrível, abro-lhe as algemas e tiro-lhe a mordaça.


 - Não sabia que conseguias fazer algo assim! - Diz-me pálida.
 - É magia muito negra, é algo que não me orgulho sequer de saber mas o que me restava? Vamos sair daqui, eles hão-de nos deixar sair.


Enquanto tentamos ir para a sala de trás uma velha agarra mão da Lirocana, ela parece reconhecê-la, mas antes que consiga dizer algo dois espíritos elevam o seu corpo contra o tecto e começam arranhar-la. Grandes cortes surgem e ela grita até perder a vida esvaindo-se em sangue. Nós continuamos, desviando-nos e empurrando quem nos aparece à frente. Finalmente na porta rodo a maçaneta e esta abre-se facilmente.
Saímos os dois a correr para fora e vemos vários carros estacionados à nossa frente. Chegando ao primeiro eu uso a minha magia para o abrir, entramos os dois de rompante e eu ligo o carro. Faço marcha atrás rápido e mesmo antes de virar, vemos um homem alto e grisalho sair pela porta a correr.  Antes que se consiga afastar muito, um dos espíritos sai do salão rapidamente e arranca-lhe a perna esquerda, ele cai no chão gritando. Antes que lhe consiga dizer para não o fazer, Lirocana abre a porta do carro e sai.


- Vais onde? A festa é lá dentro! Manda comprimentos meus ao Comar. Au revoir Goufrein! - Ela diz sorrindo ironicamente e acenando-lhe como se fossem velhos amigos enquanto os espíritos arrastam o homem novamente para dentro do salão. Pelas suas palavras e reação, este devia ser um dos responsáveis pelo estado em que ela se encontra.


Ela volta a entrar no carro e sem uma palavra saímos dali para fora. A alta velocidade passamos pelas casas e em breve chegamos à saída da aldeia. A estrada sem iluminação volta a ser o nosso mundo.  


- Achas que estavam ali todos os habitantes da aldeia? - Arrisco perguntar depois de alguns minutos.
- Não sei, mas espero que todos os responsáveis, todos aqueles que de alguma forma participaram ou beneficiaram do que ali faziam tenham aquilo que merecem.
- Amor, suspeito que essa conta vai ser saldada hoje. - Digo enquanto olho uma última vez pelo espelho retrovisor.   


Fim.